O anão enfim chegou à cidade combinada. Sua viagem já durava semanas. Queria procurar uma estalagem descente. Uma estalagem de anões, com coisas de anões. Carne fresca, mal passada, cerveja gelada, javalis, gaitas de foles e tambores. Toda estalagem anã que quisesse servir bem a esta brava estirpe tinha que ter dessas coisas. Uma estalagem com um ferreiro, de preferência, para reparar armas e armaduras. Uma cuja construção dos quartos fosse mais fresca, abaixo do nível da rua, se não fosse pedir demais. Mas era pedir demais. Para ter esse conforto era preciso pagar. E as últimas moedas do caminhante tinham ido embora com o leite de cabra aguado da criança e com cueiros e vestes decentes para proteger a menina. Ele era um soldado em campanha, um exército solitário, cuja bandeira era um enigmático bebê humano cujo destino nem ele mesmo sabia, e o estandarte uma idéia cuja menção poderia render-lhe a vida da criança e sua própria. As barbas castanho-avermelhadas, trançadas, com anéis de metais e adornos caminharam pelas ruas sem alento. A criança tinha febre. Não podiam mais dormir ao relento. Ele precisava parar. Teria de arrumar um trabalho. Não seria digno. Ele era nobre. Veio para fundar um novo reino, e acabaria como cozinheiro ou atendente? A pequena começou a chorar em seus braços. O choro ainda era um alívio. Significava que o neném tinha forças para se queixar. Uma mulher e um homem gritaram em um beco escuro mais a frente. Na penumbra, uma movimentação brusca. Passos corridos. O guerreiro atarracado apressou os passos em direção ao perigo. Um homem encostou a faca no pescoço de outro. A mulher estava desmaiada. “Todo ouro!”, um gritava. Taurus tossiu como se interrompesse algo. O ladrão virou-se frio. Algo estava errado. O outro homem acudiu a mulher no chão. O anão ergueu a adaga. Ficaram faca contra faca. O oponente, meio vesgo do olho esquerdo, alto e esguio, com manto e capuz negro, viu a criança e sorriu. Bombas de fumaça explodiram no chão. Taurus saltou para trás protegendo a menina com o lado esquerdo do corpo e reduziu a silhueta preparando um contra-ataque. O vulto negro foi para um lado e para outro. A névoa rapidamente se dissipou e a figura havia desaparecido. O anão viu-se só, com o casal. A mulher abriu os olhos abatida, com um ferimento na testa. O salvador virou-se para o homem que erguia a esposa, com o bebê nos braços ele engoliu o orgulho e falou com sua voz grossa: “preciso de ajuda...”.
09 Fevereiro, 2009
Capítulo Quarto
Nos Becos pela Madrugada
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