Lobo Solitário
É engraçado como um anão parece bruto. Eles são dotados de ternura, justiça, temperança, amor, e todas as qualidades e defeitos que uma alma possa ter. Há quem diga até que eles têm o mesmo tipo de espírito que os humanos, e que somente os elfos são diferentes. Mas quem pode afirmar realmente? O fato é que para nós, os anões parecem sempre um pouco brutos demais. Seu humor direto e curto como suas pernas, suas palavras, fortes como seus braços, e sua verdade, encarada como sua face barbada. Se alguém pudesse assistir Taurus naquela noite, cuidando do bebê, acharia curioso. Até engraçado. Ele deitou a menina sob suas roupas, armou uma fogueira e rebateu o calor na criança com a lona da barraca, formando um abrigo de uma única e larga parede. Olhava para ela com a ternura de uma mãe. Sentindo-se feliz, sentou-se ao lado e começou a limpar suas armas e armadura, ou o que havia restado delas. Respirava sem pressa, sempre com a barba longa cobrindo o peito. Sua adaga ainda estava em perfeitas condições. Faltava-lhe ouro, que perdeu na fuga. Justo ele que sempre detestou fugas. Abandonou seus superiores, a cidade que ajudara a construir, amigos e irmãos. Era uma prova. Só pode ser uma prova, ele pensava. Sentia vontade de chorar, mas tolhia de sua mente essas explosões de ânimo e tentava se concentrar no próximo passo. Era um vagabundo renegado, sem terra, um anão sem povo, sem nome, que levava consigo um bebê que deveria sobreviver por algum motivo alheio ao seu conhecimento. Fé, Taurus, fé, ele repetia. Você é o anão que eles escolheram. Na próxima cidade, se as coisas estivessem mais tranqüilas, teria de arrumar um emprego, e logo a criança precisaria de leite. Ele segurou a faca e olhou para a escuridão. Seus olhos, acostumados com as profundezas das cavernas, distinguiram facilmente a matilha. Sete lobos o cercaram. Ele levantou-se pacientemente. Se armou da espada quebrada e da adaga perfeita, cravou os pés no chão e esperou...

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